"DINHEIRO É PRA GASTAR MESMO! E PRONTO!"
Ouvi esta frase mas ela não foi dirigida a mim. Na verdade, uma moça estava com o namorado em um restaurante e eu jantava com minha esposa na mesa ao lado. Não sei se ela percebeu que a conversa entre o casal estava dominada pela emoção. Pude observar a aliança na mão direita da moça. Eram noivos e estavam discutindo questões relacionadas ao casamento. Pareceu-me que ela insistia na necessidade de economizarem para enfrentar os gastos com o casamento e com a nova fase da vida: imóvel e móveis e contas que eles mesmos deveriam arcar. Foi quando ele, quase se exaltando, retrucou às ponderações dela com essa frase do título. Talvez o chope que ele tomava já estivesse fazendo efeito.
Ele soltou a frase segurando a chave do carro quando ela disse contendo a voz: "nós não precisávamos desse carro novo, o meu dava pra gente ir se virando". Não conheci os detalhes da vida de cada um deles, nem como a história de suas vidas como casal está se desenrolando, mas me pus a pensar em como poderiam estar vivendo. Um gastador compulsivo e falastrão e uma moça comedida nas palavras, nos gestos e nos gastos. Duas pessoas, dois amantes, tão iguais e tão diferentes. Longos beijos e sorrisos largos demonstravam a paixão e a alegria de estarem juntos. Ah como eu gostaria de conversar com eles e lhes falar um pouco sobre o uso do dinheiro; e também sobre como alimentar uma paixão para que ela permaneça viva para além dos primeiros amassos em um carrinho velho e para muito mais além do noivado. E por cima de muita dificuldade e dor.
Sinto-me bem à vontade para falar dessas coisas da paixão e da dor, tanto das que senti quanto das que causei. Vivo um amor delicioso com uma mulher maravilhosa há quase 30 anos, dos quais 28 são dentro do casamento. É a mulher da foto que ilustra esta postagem. Eu estava no último semestre da faculdade em Brasília e já tinha emprego assegurado e bem remunerado no interior do Piauí. Para ela ainda faltavam três semestres. Corria o ano de 1981 e iríamos enfrentar em pouco tempo a tristeza da separação e do distanciamento. Chegou a formatura e lá fui eu para Floriano, como um nó na garganta e os bolsos cheios. Esse dinheiro me permitia retornar a Brasília todos os meses.
Num desses retornos houve uma briga besta e terminamos o namoro. Aquilo me partiu o coração e antes de voltar a Floriano conversamos e reatamos e falei que queria me casar com ela e ela aceitou na hora. Proposta aceita, fomos no dia seguinte dar entrada nos papéis sem que nossos pais de nada soubessem, afinal eles moravam a quase 2 mil quilômetro de Brasília, no interior do Ceará. Um mês depois retornei a Brasília mais uma dentre tantas outras vezes, agora com o grande motivo: casar com a mulher que mais desejei até aqueles dias e até os atuais também. Eu me sentia como se tivesse ganhado para mim a "lider de torcida" da faculdade, de tão linda e cortejada que a garota era. Tudo isso sem saber que que naquele momento em que havíamos terminado o namoro ela já estava grávida de nossa filha, a Andrea.
Chegara o dia do casamento, 3 de setembro de 1982, e estávamos radiantes de alegria. Que loucura! Só nós dois e duas madrinhas arranjadas às pressas pelo diretor da faculdade: a secretária dele e a Sara, colega de sala de minha amada. O diretor pediu permissão ao professor para que a Maria Auxiliadora pudesse sair da sala porque ela estaria indo casar. "Casar?!" Foi o grito da turma e o susto do professor. "Isso mesmo, ela tá indo casar mas já volta". E lá fomos nós ao Palácio da Justiça em Brasília.
Muitos sonhos, muitos sonhos. Mas nem imaginávamos como seria complicado administrar a nova vida de casados. Duas pessoas, dois amantes, tão iguais, tão diferentes. Sob o mesmo teto, trazendo educação e cultura totalmente distintas. Além de maneiras conflituosas de lidar com a alimentação, o dinheiro, os filhos e a fé. Uma garota linda e um rapaz que apresentava os primeiros sinais de alcoolismo estavam dividindo o mesmo teto, a mesma mesa e a mesma cama. A verdadeira guerra estava para começar; uma guerra em que a vitória de um representaria a derrota dos dois.
Os sonhos precisariam esperar. E esperaram por doze anos.