quinta-feira, 3 de junho de 2010

Minha mãe, a Sadia e o galo morto


MINHA MÃE PARA CFO DA SADIA

É isso mesmo. Durante algum tempo eu postulei a direção financeira da Sadia para minha mãe. Estou certo de meus apelos sequer chegaram à antessala da secretária do faxineiro do quinto subsolo da empresa; mas também estou certo de que deveriam ter chegado à sala de reunião de seus controladores. Tivesse isso acontecido e o futuro da Sadia teria sido outro: ela teria sido a compradora da Perdigão ao invés de ter sido a comprada. Tenho bons argumentos para querer a Sadia viva e sei que minha mãe iria colaborar enormemente para isso.

O GALO MORTO
Era 1961. Enquanto o presidente-ator Jânio Quadros fazia suas peripécias e apostava que poderia cantar de galo nos ombros de um povo idiota que o traria de volta a Brasília, na verdade foi um galo idiota que cantou alto sob a rede de meu pai durante sua sesta. Aquele repouso após o almoço durava menos de uma hora, mas era essencial para a disposição e humor dele no restante do dia.

Acordando assustado meu pai foi tomado por uma raiva sem controle e, sem sair de sua rede, passou a mão no galo e arremessou-o contra a parede. O coitado caiu se retorcendo numa cena que me lembra a falta de ar que temos quando caímos estatelados e alguma coisa nos impede de puxar o ar em toda a plenitude de nossas forças, resultando mais num gemido forte e abafado do que em respiração. Vendo aquilo minha mãe deu o "tiro de misericórdia": apanhou o galo do chão pelos pés, pegou sua cabeça deu uma volta suave nela, colocou o polegar dessa mão na nuca do miserável e num gesto rápido e firme quebrou-lhe o pescoço. Pronto, o galo estava morto e foi servido no jantar daquele dia acompanhado do sempre delicioso molho à cabidela que minha mãe sabia fazer como ninguém. Eu tinha 4 anos.

MINHA MÃE

Àquela altura nós éramos cinco filhos e filhas: duas meninas e três meninos. Meu pai era cabo da Aeronáutica e fora destacado para cuidar do campo de pouso de Juazeiro do Norte, pois era radiotelegrafista e manuseava com maestria o aparelho transmissor e receptor do código morse, usado à época ostensivamente em comunicações militares. Meu pai trabalhava para as forças armadas e minha mãe para nós, a família. Ele trazia o dinheiro e ela administrava a escassez, e com muita competência. Tratou de criar galinhas em nosso vasto quintal, que começava na porta de casa e terminava em Ponta Seixas, o ponto mais oriental do Brasil e da América continental. Eu era criança e o mundo naquele tempo não tinha cercas, pelo menos para mim. Havia também cabras e gado em nosso terreno. Aliás, o terreno, as cabras e o gado eram da Aeronáutica. As galinhas eram de minha mãe. E ela fazia bom uso de tudo. Não nos faltava leite, manteiga, nata, queijo e nem a deliciosa galinha ao molho pardo.

Nasceram mais algumas crianças em nossa casa e de todos os treze partos de minha mãe sete filhos sobreviveram às desventuras da gravidez e ao salário de meu pai. Mas havia uma normalista no comando intelectual da família. Dona Mariza, apelido dado à Maria Luíza, minha mãe, cursara a escola normal no Liceu em Fortaleza e completara o que se chama hoje de ensino médio. O caboVieira só chegara até a segunda série do tal ensino médio, chamado ginásio naqueles dias. Fazendo uma administração financeira impecável, minha mãe deu a seus filhos a oportunidade de estudarem na melhor escola de nossa cidade. Certamente a Escola Primária Batista era o melhor ensino da região do Cariri. Era particular. Meus pais já desconfiavam da qualidade do ensino público nos anos de 1960. Era dureza. Meus amigos rapidamente iam jogar bola enquanto nós ficávamos a fazer lições de casa por mais uma ou duas horas, todos os dias.

A vida era cara, mas minha mãe sabia torná-la barata, encaixando todos os gastos nos ganhos de meu pai e ainda fazendo sobrar. E não brincava com dinheiro nem entrava em apostas. Nunca fez nada parecido com isso. Mas nunca faltaram as ofertas nas missas em que íamos nos Franciscanos, na Matriz ou na igreja de São Miguel.

E A SADIA?
Em julho de 2006 foi noticiado que a Sadia decidira comprar a Perdigão, sua principal concorrente, em um negócio que chegaria da R$ 3,7 bilhões. Foi uma oferta hostil e terminou por ser rejeitada. Nessa ocasião um executivo financeiro da Sadia, um membro de seu conselho de administração e um executivo do banco ABN Amro, que avalizaria a transação, tiveram de prestar contas ao órgão regulador dos mercados financeiros aqui no Brasil e também nos Estados Unidos. Por lá houve um acordo, e eles pagaram multas e foram punidos com suspensões no direito de participar por vários anos do mercado financeiro. Aqui no Brasil a coisa ainda está rolando, mas já houve suspensão. A acusação estava relacionada a ganhos ilegais no mercado de ações por saberem antecipadamente da decisão tomada pela Sadia de comprar a Perdigão. Como esses executivos faziam parte das equipes que arquitetavam a operação, foram acusados de comprar ações da Perdigão bem antes de o mercado saber da transação, para revendê-las com ganhos após a revelação ao público. E quando a notícia foi divulgada o preço das ações da Perdigão dispararam chegando a quase 17% num único dia, trazendo ganhos de várias centenas de milhares de dólares a esses três executivos. As investigações tentaram provar a má-fé dessas pessoas e elas terminaram por ser demitidas das empresas e punidas de outras formas.

A Perdigão reagiu e um ano depois comprou a Eleva numa transação de R$ 2 bilhões. A Eleva era a dona das marcas Avipal (uma das líderes no mercado de carne de frango) e Elegê (uma das líderes no mercado de laticínios). Essa aquisição fez a Perdigão se tornar maior que a Sadia em faturamento: R$ 8,2 bilhões contra R$ 7,9 bilhões.

A Perdigão continuou reagindo e passados mais dois anos ela comprou a própria Sadia. A operação foi chamada de fusão, em vez de aquisição. Mas a verdade é que as famílias Furlan e Fontana, antigas controladoras da Sadia perderam muito do poder que tinham, ficando o comando da Brasil Foods, a empresa resultante da fusão, sob o controle dos fundos de pensão, que já controlavam a Perdigão.

A SADIA MORREU
O fato é que a Sadia, como empresa, deixou de existir apenas três anos depois de tentar comprar a Perdigão. E morreu pelas mãos de sua intencionada vítima. Como isso pôde acontecer? A bala que matou a Sadia tem nome: derivativo cambial.

E o que é um derivativo cambial? E como minha mãe entra nessa história? É o assunto de minha próxima postagem. Acompanhe e verá que a Sadia não deu muita sorte em suas aventuras financeiras.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

"Dinheiro é pra gastar!" É? (Parte 1)

"DINHEIRO É PRA GASTAR MESMO! E PRONTO!"

Ouvi esta frase mas ela não foi dirigida a mim. Na verdade, uma moça estava com o namorado em um restaurante e eu jantava com minha esposa na mesa ao lado. Não sei se ela percebeu que a conversa entre o casal estava dominada pela emoção. Pude observar a aliança na mão direita da moça. Eram noivos e estavam discutindo questões relacionadas ao casamento. Pareceu-me que ela insistia na necessidade de economizarem para enfrentar os gastos com o casamento e com a nova fase da vida: imóvel e móveis e contas que eles mesmos deveriam arcar. Foi quando ele, quase se exaltando, retrucou às ponderações dela com essa frase do título. Talvez o chope que ele tomava já estivesse fazendo efeito.


Ele soltou a frase segurando a chave do carro quando ela disse contendo a voz: "nós não precisávamos desse carro novo, o meu dava pra gente ir se virando". Não conheci os detalhes da vida de cada um deles, nem como a história de suas vidas como casal está se desenrolando, mas me pus a pensar em como poderiam estar vivendo. Um gastador compulsivo e falastrão e uma moça comedida nas palavras, nos gestos e nos gastos. Duas pessoas, dois amantes, tão iguais e tão diferentes. Longos beijos e sorrisos largos demonstravam a paixão e a alegria de estarem juntos. Ah como eu gostaria de conversar com eles e lhes falar um pouco sobre o uso do dinheiro; e também sobre como alimentar uma paixão para que ela permaneça viva para além dos primeiros amassos em um carrinho velho e para muito mais além do noivado. E por cima de muita dificuldade e dor.

Sinto-me bem à vontade para falar dessas coisas da paixão e da dor, tanto das que senti quanto das que causei. Vivo um amor delicioso com uma mulher maravilhosa há quase 30 anos, dos quais 28 são dentro do casamento. É a mulher da foto que ilustra esta postagem. Eu estava no último semestre da faculdade em Brasília e já tinha emprego assegurado e bem remunerado no interior do Piauí. Para ela ainda faltavam três semestres. Corria o ano de 1981 e iríamos enfrentar em pouco tempo a tristeza da separação e do distanciamento. Chegou a formatura e lá fui eu para Floriano, como um nó na garganta e os bolsos cheios. Esse dinheiro me permitia retornar a Brasília todos os meses.

Num desses retornos houve uma briga besta e terminamos o namoro. Aquilo me partiu o coração e antes de voltar a Floriano conversamos e reatamos e falei que queria me casar com ela e ela aceitou na hora. Proposta aceita, fomos no dia seguinte dar entrada nos papéis sem que nossos pais de nada soubessem, afinal eles moravam a quase 2 mil quilômetro de Brasília, no interior do Ceará. Um mês depois retornei a Brasília mais uma dentre tantas outras vezes, agora com o grande motivo: casar com a mulher que mais desejei até aqueles dias e até os atuais também. Eu me sentia como se tivesse ganhado para mim a "lider de torcida" da faculdade, de tão linda e cortejada que a garota era. Tudo isso sem saber que que naquele momento em que havíamos terminado o namoro ela já estava grávida de nossa filha, a Andrea.

Chegara o dia do casamento, 3 de setembro de 1982, e estávamos radiantes de alegria. Que loucura! Só nós dois e duas madrinhas arranjadas às pressas pelo diretor da faculdade: a secretária dele e a Sara, colega de sala de minha amada. O diretor pediu permissão ao professor para que a Maria Auxiliadora pudesse sair da sala porque ela estaria indo casar. "Casar?!" Foi o grito da turma e o susto do professor. "Isso mesmo, ela tá indo casar mas já volta". E lá fomos nós ao Palácio da Justiça em Brasília.

Muitos sonhos, muitos sonhos. Mas nem imaginávamos como seria complicado administrar a nova vida de casados. Duas pessoas, dois amantes, tão iguais, tão diferentes. Sob o mesmo teto, trazendo educação e cultura totalmente distintas. Além de maneiras conflituosas de lidar com a alimentação, o dinheiro, os filhos e a fé. Uma garota linda e um rapaz que apresentava os primeiros sinais de alcoolismo estavam dividindo o mesmo teto, a mesma mesa e a mesma cama. A verdadeira guerra estava para começar; uma guerra em que a vitória de um representaria a derrota dos dois.

Os sonhos precisariam esperar. E esperaram por doze anos.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Como faço para investir? (parte 1)

UMA FONTE, VÁRIAS SAÍDAS. NENHUM INVESTIMENTO

A maioria das pessoas tem apenas uma fonte de renda: a proveniente de seu salário ou de seu empreendimento, ou da aposentadoria ou da pensão. E na maior parte das vezes o recebimento se dá em um único momento do mês. A partir do recebimento começa a maratona de pagamento de contas e de tentativas de fazer o dinheiro ser suficiente para comprar os mantimentos e pagar o transporte, além de custear algum lazer até o final do mês. Vestuário, acessórios e presentes ficam aguardando alguma sobra. Deveriam ficar, mas acontece de serem os primeiros a ter sua compra garantida. E os investimentos? Sem chance!

Para investir é preciso ir além de fazer sobrar dinheiro todo mês, o que já é de certa forma complicado e poucas pessoas conseguem com regularidade. Algumas questões precisam ser respondidas antes de fazer as aplicações das sobras de caixa mensais. Tem de saber por que se quer aplicar. O que se pretende com essa acumulação de dinheiro? Financiar viagens ou estudos, adquirir bens ou garantir a aposentadoria com maior conforto? Quais são os seus sonhos? Pense neles quando planejar seus investimentos.

É preciso também saber onde aplicar. Quais os produtos de investimentos que mais de correspondem aos motivos pelos quais está investido? Quais investimentos podem tornar seus sonhos em realidade com maior eficácia? E quais estão de acordo com suas expectativas de retorno, risco e liquidez? Acredito que muitas pessoas nem saibam o que significa essas três importantes características dos investimentos. Esse desconhecimento tem sido responsável por afastar os investidores de melhores produtos.

Finalmente, é importante saber colocar tudo isso em prática e aprender como investir. Saber escolher um banco de investimentos ou uma corretora de valores; abrir uma conta na instituição eleita; aprender a fazer os investimentos pela internet, usando o homebroker; e emitir as ordens de compra ou venda de ativos e derivativos.

Aos poucos irei fazendo postagens tratando dessas exigências feitas àqueles que pretendem ingressar no mundo dos investimentos qualificados. Com isto espero contribuir para tornar a caderneta de poupança apenas mais uma oportunidade de investimentos, e não a única. Prometo lhe trazer um apanhado geral das principais modalidades de aplicações, fazendo um comparativo de suas liquidez, risco e rentabilidade.

É isso. Por enquanto.
Aproveite bem o seu dia.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O Ciclo da Pobreza (parte 1)

O empobrecimento pode se manifestar de variadas formas, sendo a mais marcante a perda de patrimônio. Essa perda, que às vezes, ocorre de maneira até certo ponto inesperada, na maior parte das vezes há uma marcha firme, constante e consciente na direção dela. Pode-se dizer que as perdas inesperadas são originadas, em geral, de negócios mal feitos, de desemprego, doenças ou até mesmo de conjunturas que fogem ao controle das pessoas e empresas. O segundo tipo de perda é decorrente de atitudes e comportamentos já consolidados. Nesta série postagens sobre o Ciclo da Pobreza quero tratar deste segundo caso com mais atenção.

Enquanto algumas pessoas, deliberadamente "jogam dinheiro fora", outras, cheias de boas intenções voltadas para a economia de recursos, tomam decisões erradas; é a história do "barato que sai caro".Conheço pessoas que adquirem certos hábitos na intenção de economizar, mas o próprio hábito se torna uma armadilha. Aconteceu comigo: a fim de economizar a comissão da imobiliária, aluguei o apartamento diretamente com o candidato a inquilino. Além de eu não receber os aluguéis, ele ainda não pagou o condomínio. Meu prejuízo foi equivalente a quase 10% do valor do imóvel.

Aprendi uma dura lição com esse imóvel. E a partir daí tomei uma decisão: não mais investiria em imóveis para obter renda de aluguéis. Em vez disso, continuaria investindo em imóveis só que, daí por diante, meu intuito seria o de comprar ou construir para revender. Essa foi a minha decisão; mas sei de pessoas que ganham muito dinheiro com o aluguel de imóveis. Esse ganho pode vir acompanhado de severos aborrecimentos. Prefiro ficar de fora.

Essa foi uma decisão errada: evitar a imobiliária. Eu não joguei o dinheiro fora deliberadamente. A idéia era economizar. O ruim seria não ter retirado nenhuma lição desse fato. A coisa piora quando nenhuma lição é aprendida, mesmo quando se sabe que os erros estão se acumulando e de forma plenamente consciente. Esses são os casos de perdas decorrentes de maus hábitos, como o das compras compulsivas de coisas que logo se tornam esquecidas em algum canto da casa. Os exemplos são muitos: (i) cartões de crédito com parcela atrasadas; (ii) cheque especial com limite estourados; (iii) prestações e financiamentos não honrados; (iv) escolas, alugueis e condomínios atrasados; (v) planos de saúde com parcelas vencidas e não pagas; (vi) plano de previdência esquecidos ou nunca lembrados. O que dói, talvez não muito agora, mas certamente doerá profundamente no futuro, é a constatação de que a gastança continua, demonstrando nenhuma preocupação aparente com a gravidade da situação. O que fazer para vencer esse ciclo de dívidas e juros que fazem as pessoas se tornarem cada vez mais pobres? Um empobrecimento que rouba sonhos.

Como romper esse ciclo? É sobre isso que estaremos tratando aqui. Não sou psicólogo, não sei discorrer sobre razões que levam a determinados comportamentos; mas tenho conversados com especialistas no assunto, dentre eles está a minha filha, Andrea, excelente psicanalista. O que eu sei é planejar as finanças, tratar as dívidas e organizar os investimentos, além de preparar um plano para a aposentadoria. Falarei sobre isso enquanto compreendemos alguns traços comportamentais que afundam pessoas mas que também as tornam pessoas sensatas e equilibradas.

Tenho vários casos como esse em meus arquivos; mas há três deles que são imponentes: (a) o juiz casado com uma médica; (b) a Graça, funcionária pública; (c) e o jogador de futebol que brincou com o tempo e a vida. Acompanhe as postagens.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Depois do Mestrado...

Voltei....
Em 16 de abril deste ano defendi minha dissertação de mestrado em Administração. Tudo correu bem. Cheguei cedo à Praia de Botafogo no Rio de Janeiro, onde fica a Fundação Getúlio Vargas (FGV/Rio). Fizeram parte da banca examinadora o meu orientador, Professor Antonio Freitas, sua colega de FGV Professora Débora Zouain e o Professor Roberto Moreno, da PUC/Rio.
Meu tema foi o Mercado de Capitais e defendi a hipótese de que as ações de menor relação Preço/Lucro apresentam retornos maiores do que as ações em que esta relação é maior. Minha hipótese foi confirmada, valendo para o período de 2004 a 2008. E acredito que continue sendo verdadeira para 2009 e agora para 2010.
Nestas minha próximas postagens quero trazer à baila o livro que estou escrevendo. Acredito já ter passado do primeiro terço da jornada de levar minha experiência com finanças às pessoas que vivem sufocadas por dívidas e consumismo irrefreável. Trago no livro a idéia da TRAVA de 1%, já comentada em postagem anterior e que promete aos que não conseguem desenvolver um plano de investimentos, recuperar o tempo perdido e criar segurança financeira.
Esse assunto também será abordado em minhas próximas postagens. Esse e muitos outros.
É isso! Um abraço e uma boa vida.